A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, instituída pela Lei 12.608 em 2012, redistribuiu responsabilidades de forma que muitos municípios ainda não absorveram por completo. O texto é claro: cabe ao município identificar riscos, prevenir, preparar-se e responder. Não é papel exclusivo do estado, nem do bombeiro, nem da União.
Na prática, boa parte das cidades brasileiras convive com uma estrutura mínima, muitas vezes uma pessoa acumulando a função com outras atribuições. Quando o evento acontece, a resposta depende de improviso e boa vontade.
Este texto é um roteiro direto para quem precisa sair desse ponto.
1. Saber onde estão os riscos
Não existe gestão de risco sem mapeamento de risco. Isso significa identificar, com endereço, as áreas suscetíveis a inundação, deslizamento, alagamento, vendaval e demais ameaças relevantes para a região — e, mais importante, quantas pessoas vivem nelas.
Um mapeamento útil não é um mapa bonito. É um documento que responde: quantas famílias precisam sair, para onde vão, quem avisa e em quanto tempo.
2. Constituir formalmente a COMPDEC
A Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil precisa existir por lei municipal, com estrutura, atribuição e responsável designado. Sem ato formal, não há orçamento próprio, não há legitimidade para acionar outros órgãos e não há como pleitear recursos federais.
É a etapa mais burocrática e a que mais destrava as seguintes.
3. Ter plano de contingência por cenário
Plano de contingência genérico não serve. O plano precisa ser por cenário: o que fazer em uma inundação, o que fazer em um deslizamento, o que fazer em um evento de vento extremo.
Cada cenário precisa responder quatro perguntas:
- Qual é o gatilho que aciona o plano — qual nível de rio, qual volume de chuva, qual alerta.
- Quem faz o quê, com nome e função, não apenas com o nome do órgão.
- Quais recursos serão usados e onde eles estão fisicamente.
- Como a população é avisada e por qual canal.
Um plano que ninguém consegue executar às três da manhã, sem o autor por perto, não é um plano. É um relatório.
4. Treinar e simular
Plano não treinado é plano desconhecido. O simulado é o único momento em que os defeitos aparecem antes de custarem caro: o telefone que ninguém atende, a chave do abrigo que sumiu, o responsável que não sabia que era o responsável.
Simulado não precisa ser grandioso. Precisa ser periódico e honesto.
5. Registrar tudo
Cada ocorrência atendida, cada vistoria, cada notificação e cada acionamento precisa ficar registrado. Isso serve para três coisas: qualificar a decisão futura com base em histórico, comprovar atuação diante de órgãos de controle e sustentar pedidos de recurso e de reconhecimento de situação de emergência.
É também o que impede que o conhecimento vá embora quando o servidor experiente se aposenta.
6. Manter vivo
Aqui é onde a maioria dos municípios trava. Cumprir as cinco etapas anteriores uma vez é viável com esforço concentrado. Mantê-las atualizadas ano após ano, com troca de gestão e equipe reduzida, exige método e ferramenta.
Foi exatamente para essa etapa que construímos o Heimdall: uma plataforma que sustenta a rotina de proteção civil do município para além do esforço individual de quem estava lá quando o plano foi escrito.
Se o seu município está em qualquer ponto desse caminho — inclusive no começo — vale conversar. O primeiro passo custa menos do que parece.
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